Nem toda ansiedade se manifesta apenas como preocupação mental.
Muitas vezes, ela aparece no corpo de forma intensa e assustadora:
tontura, sensação de irrealidade, confusão, dormência, coração acelerado, medo súbito de enlouquecer, despersonalização e desrealização.
Nesses momentos, a pessoa sente que não está totalmente dentro de si.
O mundo parece distante.
O próprio corpo parece estranho.
A mente tenta entender, mas não encontra respostas claras.
Isso gera ainda mais medo.
Mas esses sintomas não são sinais de fraqueza, loucura ou perda de controle.
Eles são respostas automáticas do sistema nervoso diante de uma percepção de ameaça.
A desconexão como mecanismo de sobrevivência
Quando o corpo percebe perigo — real ou simbólico — ele pode escolher desconectar como forma de proteção.
É um mecanismo antigo, profundo e inteligente.
Se lutar ou fugir não parecem possíveis, o sistema entra em modo de congelamento ou dissociação.
Nesse estado, a consciência se afasta parcialmente das sensações, das emoções e da realidade imediata, tentando reduzir o impacto da dor, do medo ou do desamparo.
Por isso, muitas pessoas com histórico de trauma, abandono, sobrecarga emocional ou ambientes imprevisíveis desenvolvem esses sintomas.
O corpo aprendeu que desconectar é sobreviver.
Por que os sintomas parecem tão assustadores?
A desconexão corporal gera sensações que fogem do controle racional.
A pessoa pode sentir:
- Medo intenso sem causa aparente
- Sensação de estar fora do próprio corpo
- Distorção da percepção do tempo e do espaço
- Confusão mental
- Dormência ou formigamento
- Sensação de perda de identidade
Como essas experiências são pouco faladas, elas costumam ser interpretadas como algo grave ou perigoso.
Isso ativa ainda mais o sistema nervoso, criando um ciclo de medo → ativação → mais sintomas → mais medo.
O que mantém o quadro não é a fragilidade da pessoa, mas a ausência de segurança interna.
O caminho não é controlar — é criar segurança
Tentar controlar a ansiedade raramente funciona a longo prazo.
Quanto mais a pessoa tenta suprimir, evitar ou lutar contra os sintomas, mais o corpo entende que existe perigo.
O caminho terapêutico real é outro.
Ele passa por ensinar o sistema nervoso a reconhecer que o presente é seguro.
Isso envolve:
- Presença corporal
- Regulação do ritmo interno
- Reconhecimento das emoções reprimidas
- Construção de recursos internos
- Relações seguras
Quando o corpo começa a sentir apoio, acolhimento e estabilidade, ele não precisa mais se desconectar.
A ansiedade diminui.
O pânico perde força.
A presença volta, pouco a pouco, a se expandir.
Ansiedade, pânico e trauma — um olhar mais profundo
Em muitos casos, os sintomas atuais não se originam no presente, mas em memórias corporais antigas.
O corpo reage hoje como reagiu no passado, em momentos em que não havia recursos, escolha ou proteção suficientes.
Por isso, o trabalho terapêutico não se limita à compreensão racional.
Ele envolve integração emocional, corporal e relacional.
É nesse campo que a cura acontece:
quando o corpo aprende que agora existe escolha, apoio e presença.
Um espaço seguro para voltar ao próprio corpo
No meu trabalho terapêutico, acompanho pessoas que vivem ansiedade, pânico e desconexão corporal a reconstruírem a sensação de segurança interna.
Criamos, juntos, um espaço onde:
- o corpo pode desacelerar
- as emoções podem existir sem medo
- a presença pode se expandir
- a história pode ser integrada
Sem pressa, sem violência interna, sem imposições.
Voltar ao corpo é voltar para casa.
E esse retorno acontece no tempo do corpo, do sistema nervoso. Com segurança.
Com carinho,
Sitara Ju